Fêmea precoce paga “aluguel” em dia

A fêmea é o patrimônio genético da fazenda. Quem nunca viu essa frase ser repetida incansavelmente pelos geneticistas? Com o objetivo de melhorar a base dos rebanhos de cria associados a seu programa de melhoramento genético, o Nelore Qualitas acaba de inserir duas novas características em seu universo de avaliações: probabilidade de parto precoce e stayability super precoce, esta calculada de forma inédita no País, a partir de um banco de mais de 10.000 matrizes precoces e superprecoces avaliadas pelo programa, ou seja, fêmeas que pariram pela primeira vez aos 24 meses de idade.

A novidade recém-anunciada pelo Qualitas vai de encontro à atual demanda do mercado de genética, que é identificar a melhor matriz, seja ela mãe de touros de central ou uma “máquina” eficiente dentro de um rebanho de cria, de maneira que o capital investido para sua produção retorne no menor tempo possível ao produtor. Para o diretor do Nelore Qualitas, Leonardo Souza (mais conhecido como Leo), o criador tem um “inquilino” que custa muito caro na fazenda (plantel de matrizes), e que, na maioria das vezes, está devendo o “aluguel” (produtividade). Mas, com boa seleção e manejo, esse inquilino pode manter a dívida em dia ou até mesmo quitá-la antes. “Quando antecipo minha prenhez, antecipo meu lucro” , observa.

Para lançar suas duas novas DEPs, o Qualitas realizou um levantamento nas fazendas associadas ao programa, compilando dados de 30.000 matrizes, para avaliar quanto tempo uma novilha que emprenha aos 24 meses demora para se pagar. Constatou que, até o segundo bezerro desmamado, os gastos para produzi-la, recria-la e mantê-la no rebanho são maiores do que o valor obtido com a venda de seus filhos. Somente a partir da terceira cria é que o dinheiro investido retorna ao produtor. Isso se ela empenhar aos dois anos, tiver um intervalo de partos regular de 12-13 meses e não for considerado o custo do capital investido. São exatos 5,8 anos até a quitação de sua dívida com o criador (veja tabela)

Devido a sua importância econômica, a stayability se popularizou nos últimos anos, tornando-se um termômetro da produtividade das fêmeas e a “DEP queridinha” dos selecionadores. Ela preconiza que a matriz se mantenha ativa no rebanho até os seis anos de idade, produzindo ao menos três crias nesse período, o que, em tese, lhe permitiria “quitar sua dívida” com o produtor, mas com a guinada provocada pela pecuária de ciclo curto e um número cada vez maior de rebanhos desafiando fêmeas aos 14 meses, a stayability tradicional (seis anos de permanência) acabou “caducando”. Afinal, a prenhez aos 14 meses permite diminuir em um ano o tempo para que a fêmea se pague dentro do rebanho de cria, se não falhar.

Antecipando o “boleto” Na stayability recém-lançada pelo Qualitas, as fêmeas devem empenhar precocemente, reconceber no ano seguinte e produzir pelo menos três bezerros até os quatro anos de idade. “Se falhar, ela não atinge o desafio proposto, nem se mantém no rebanho”, explica Leo, garantindo que os associados do programa seguem rigorosamente a determinação de descartar matrizes por falha na concepção (veja exemplo relatado por ele no quadro). Já na DEP de probabilidade de parto precoce, a exigência é de que a fêmea entregue o bezerro aos 24 meses e não apenas que emprenhe aos 14. A característica extravasa a “pura e simples” probabilidade de prenhez e considera, especificamente, a entrega do bezerro pela fêmea. “Muitos produtores avaliam essa característica a partir do diagnóstico da gestação. Nós preconizamos avaliar na parição, já que essa DEP proporciona aumento na rentabilidade da cria, maior produção de bezerros e, consequentemente, maior taxa de desfrute do rebanho”, diz Leo.

São atribuídas as notas 1 (sucesso) às fêmeas que parem ao redor dos 24 meses e zero (fracasso) àquelas apresentam o primeiro parto com cerca de 36 meses. As notas são associadas à metodologia de formação da nova DEP para identificar os touros que produzem um maior percentual de filhas com primeiro parto aos 24 meses de idade. “A fêmea precisa parir, desmamar um bom bezerro e empenhar novamente por pelo menos três anos. Se ela for excluída do rebanho antes disso, independentemente do motivo do descarte, significa que não se pagou”, diz Leo, reforçando a necessidade de se associar as duas novas características para maior eficiência na cria. “Em anos excepcionais para a reposição, como 2020, a matriz pode se pagar com duas crias, mas em períodos normais, a conta correta é três. As avaliações se complementam”, diz.

Neste sentido, o diretor do Qualitas dá o “spoiler” do que vem pela frente. Até 2021, o programa deve lançar o índice “Matriz Qualitas” totalmente focado nas questões maternas, agregando às duas novatas a já veterana habilidade materna. Por enquanto, a probabilidade de parto precoce e a stayability SP serão introduzidas apenas como DEPs no programa de melhoramento, que, hoje, tem seu índice composto pelas seguintes ponderações: peso à desmama (24%), ganho de peso pós-desmama (38%), musculosidade (19%) e perímetro escrotal (19%)

“No momento, estamos estudando as correlações e vendo como estão se comportando as outras características com relação às novas inserções”, diz Leonardo, garantindo que produtor já consegue utilizar essas DEPs a seu favor

O novo índice, porém, não mudará a composição do atual, já que esse ranking será direcionado exclusivamente aos produtores que fazem cria ou desejam melhorar a base genética do rebanho. “Além das características reprodutivas, o pecuarista deve olhar os demais quesitos avaliados pelo Qualitas para a escolha do touro ideal”, alerta Leonardo, salientando que o segredo de uma boa seleção está no equilíbrio. “O animal deve ser o mais completo possível em todos os aspectos, assim reduzimos riscos de uma seleção direcionada, mas pouco eficiente.”

Autor

Leonardo Souza
Leonardo Souza
Médico Veterinário pela Universidade Federal de Goiás, especialista em Pecuária de Corte pelo Rehagro, sócio-diretor da Qualitas Melhoramento Genético, com 21 anos de atuação nas áreas de gestão, produção e melhoramento genético. O Programa Qualitas de Melhoramento Genético conta com mais de 40 fazendas, nos estados de GO, TO, RO, SP, PR, MG e MT e também na Bolívia, totalizando um rebanho de mais de 250.000 cabeças.

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